Acredite: Clodovil gostava de mulher

por Ronald Rios

Conheci o Clodovil no final de 2003. Eu era locutor duma rádio aqui no Rio e um dia ele foi como convidado a um programa dela. Ele tava fazendo um sucesso num programa na Rede TV e iria no programa principal da emissora, “A Hora da Odisséia”, um programa que ia das 7 da manhã até meio-dia, apresentado pela lenda viva do rádio nacional Odisseu Bittencourt. Nesse dia, por problemas pessoais, Odisseu ligou e avisou que não poderia apresentar o programa. Não havia mais nenhum locutor disponível e sobrou para mim a tarefa de entrevistar Clodovil. Pensei em ligar para rádio avisando que não dava para eu ir lá substituir o Odisseu, mas eu já estava na emissora, pois era locutor da madrugada, então essa mentira não iria colar.

Comecei o programa e tudo corria muito bem. A entrevista com o Clodovil começou às 10 da manhã e quando ele entrou no estúdio, eu juro que fiquei branco. Mas ele foi super amigável e deu boas lições a mim e ao Rio de Janeiro. Clodovil sabia tudo sobre tudo. Era tipo uma Wikipédia que se vestia muito bem e dava o cu.

Ou será que dava? Porque veja bem, vídeo da menina do Big Brother pagando boquete todo mundo já viu. Mas ninguém viu vídeo do Clô dando o cu. E eu vim aqui explicar o motivo disso.

Após o programa, a produção da Hora da Odisséia sempre almoçava com o convidado do dia no Bar Amarelinho, ali no Catete, um bar razoável que tem um rango razoável. Mas é claro que com o Clô, o pessoal estava nervoso e queria impressioná-lo. Ele ouviu uma conversa sobre isso nos corredores e – juro pra ti – disse: “Vamos comer aonde vocês comem todo dia. Não sou melhor que ninguém aqui. Quer dizer, até sou.”

Mas completou: “Mas não quero ninguém se preocupando com que talher vai comer tal comida só para me impressionar. Vamos nesse bar mesmo.”

E fomos para o Amarelinho.

Comemos e rimos bastante. A equipe da Hora da Odisséia precisava voltar para a rádio porque eles produziam o programa policial que começava às 14 horas, “A Hora do Sacode”, então aos poucos eles foram embora até que sobraram apenas eu e Clodovilno bar. E ficamos conversando:

- Pô, muito bacana o programa de hoje, Clô – posso te chamar de Clô?

- Não pode.

- Muito bacana o programa de hoje, Clodovil. A gente recebeu vários e-mails com sua participação.

- O que são e-mails? – perguntou Clô.

Pensei que fosse uma brincadeira. Ou então fosse o início de algum discurso do tipo “O que são e-mails na vida de uma pessoa, Ronald? Nada.” Mas não.

- O que são e-mails?

- São… é tipo uma correspondência, tipo um correio. Só que chega pelo computador, em segundos.

- E você assina aonde?

- Como assim?

- O carteiro te dá o que para assinar a correspondência do computador?

- Então, foi bacana a sua participação, Clô.

Clodovil.

Clodovil era uma figuraça, um prazer. É assim que eu descrevo ele: prazer. Prazer de viver, de falar, de ser.

- Mas Ronald, me diz uma coisa.

- Manda Clodovil.

- Pode me chamar de Clô, na verdade.

- Clô?

- É, baseado no que a gente vai fazer agora, você pode me chamar de Clô. – disse ele com um olhar meio esquisito.

Não curti isso e olhei com raiva para o cara. Falei bem calmo: “QUAL É DO BAGULHO?”

Veja bem, eu não sou homofóbico. Eu só não curto quando tem algum maluco a fim de chupar meu pau. É minha restrição. Tem que ter um nome para isso, não pode ser homofobia.

- Não entendi. – respondeu assustado o Clodovil.

- A gente tá aqui numa boa e você vem com esse papo.

- Mas Ronald, você nem me deixou terminar!

- Fala logo, maluco.

- Eu quero saber se você sabe onde a gente consegue arrumar umas prostitutas aqui no Catete.

Essa frase ecoa na minha cabeça até hoje, sério. Sempre que falam do Clodovil, eu penso nisso.

- Você quer o quê, Clô?

- Peguei essa ponte-aérea, fiz o programa na tua rádio… o mínimo que posso ter de recompensa é um programa com uma carioca, né? Duas. Moreninhas e baixinhas!

- Mas Clodovil, como assim?

- Como assim o quê, Ronald?

- Tipo, cara… você é – tá ligado – gay.

- Gay?

- É. Na minha cabeça você quer passar a mão no meu pau agora mesmo, tá ligado. É meu medo.

- É por isso que você tá sentado do outro lado da mesa? - gritou Clô, para que eu pudesse ouvir.

- Sim.

- Mas eu não sou gay!

- Como não é gay?

- Não sendo. Gosto de buceta.

- Pra valer?

- Mas é lógico. Daonde você foi tirar essa ideia de que eu sou gay?

- Teu jeito de falar.

- Meu jeito de falar?

- Tuas roupas.

- Minhas roupas?

- Tu desmunhecando o tempo todo.

- Eu desmunhecando o tempo todo?

- Isso tudo, cara. Tipo, falar “Olha meu amor” a cada duas frases não ajuda a parecer macho. Usar essas roupas roxas também não ajuda a provar que tu é testosterona pura. E desmunhecar, bom, isso fala por si só. Nenhum lutador de boxe desmunheca. Só jogador de vôlei. E vôlei é esporte de viado.

- Caramba.

- O quê?

- Nunca ninguém tinha me dito que eu pareço gay.

- Sério? Mas você nem desconfiava que as pessoas tinham como certo sua homossexualidade?

- Necas.

- Caramba, Clô.

- Eu que o diga. Eu sempre achei que as mulheres trocavam de roupa na minha frente porque gostavam de se exibir para mim. Daí eu ficava sarrando nelas e elas riam.

- Wow!

- Eu engravidei uma mulher assim uma vez, cara!

- Caramba! Clô, a gente tem que dar um jeito nisso aê! Vamos mudar sua imagem.

- Que nada. Em time que tá ganhando não se mexe. Vamos parar com esse papo de viado e me apresenta umas cariocas que trabalham duro para pagar a faculdade! – disse Clô com um sorriso sacana.

Fomos a um prostíbulo ali perto do Largo do Machado aonde Clô provou que “Olha meu amor” era só uma frase que ele falava para fazer as putas darem um desconto a ele por pensarem que estavam operando algum milagre. Além disso, Clô dizia que ia dar o telefone de contato delas na tv. Permuta, tua casa é a tv brasileira.